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sábado, 17 de julho de 2010


Lágrimas da Chuva.
J. Norinaldo

Em meu sonho tu estavas tão bela,
Tão cheia de vida tão cheia de graça,
Dançavas Ravel só para o meu deleite,
Como a dança do ventre a um príncipe consorte.
Acordei com a chuva a escorrer na vidraça...
Como a chorar a desgraça da tua morte.

Não só tu partistes deixando a saudade,
Se o destino existe é muito cruel.
Juntar duas almas num amor tão grande,
E no auge da vida levar-te para o céu.
Por que não levar-me junto contigo,
Deixar –me sozinho sorvendo este fel.

No meu sonho te vi a correr na campina,
Jogando as roupas ao sabor do vento,
E aquele sorriso que era só teu.
Acordo com a chuva a chorar na vidraça,
A vida nos fez uma grande trapaça...
E hoje a chuva chora o choro que é meu.

Renova-se a vida a cada primavera,
E os pássaros cantam a mesma canção.
Minha vida tapera é inverno constante,
Nunca pedi que a chuva chorasse por mim,
Não esqueço um instante a nossa paixão,
Se já não choro mais é que secou a fonte.



quinta-feira, 15 de julho de 2010


O Salário do Rei.
J. Norinaldo

Sossegar as feras e domar o vento,
Preparar a terra e esperar a chuva,
Enfeitar a fronte de um filho nobre,
E ensinar ao pobre a fermentar a uva;
Recolher os lucros em fino metal...
E pagar ao povo com pedras de sal.

Que os arautos gritem para o povo,
Que Deus é tudo o bem e o mal,
Quem desobedece não terá o pão.
Quem beber do vinho destinado ao rei,
Será perseguido pela mão da lei...
Arderá na fogueira da inquisição.

Se vestirão mestres com mantos sagrados,
Será coroado quem foi escolhido,
E será ouvido: Deus está contigo.
Que terá a esfinge nas pedras de sal,
Dizendo que o céu está em suas mãos,
As mesmas mãos que repartem o trigo.

A árvore que dá o fruto e alimenta a vida,
Que cede a madeira também na partida,
Não escolhe a quem emprestar a sombra,
O vento segue indomável ondeando o trigal,
E o homem da fronte enfeitada a fazer o mal...
Bebendo o doce vinho e repartindo o sal.


terça-feira, 13 de julho de 2010


Eu Vi.
J. Norinaldo.

Já ouvi o silencio chorando por não poder falar, escondido sob as sombras do vento tateando na calada da noite em busca de um lenço pra secar seu pranto. Eu vi uma alma sofrida tentando sem êxito animar uma vida; eu vi um resto de gente rastejar na lama num canto qualquer. Eu vi diante do nariz a solidão me fazendo careta e me sorrir, eu vi a dor mais doida, bem diante de mim. Eu vi o desprezo, a inveja, a soberba perversa no mesmo sorriso. Eu vi a maldade a demência e a cobiça, a sujeira a preguiça tudo em um mesmo vidro. Eu vi, desilusão o desgosto revolta e tristeza tudo no mesmo rosto. Eu vi a vida atrás de mim pra ser vivida, mas não vi, a vontade de sair da frente do espelho. Este espelho que me mostra o que eu sou, há tanto tempo que alguém o inventou, quem sabe ainda encantado com a beleza de Narciso, não aprendeu e me mostrar como eu queria ser.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Eu troco.
J. Norinaldo.

Eu quero as melhores cartas,
A montanha mais alta para o meu sermão.
Eu quero um castelo encantado
E um cavalo alado para o meu passeio,
Quero uma orquestra de arcanjos
Harpejando Nabuco para meu recreio.

Eu quero o mais belo sorriso
Quero o paraíso para te ofertar.
Quero o oceano mais profundo
Com os mais lindos corais para te enfeitar.
Quero todo tempo do mundo
Para poder te amar.

Troco tudo isto que quero
Por um simples bolero,
Pra contigo dançar.
Troco tudo que tenho na vida
Por um beijo teu minha querida,
Que esperas? Vamos trocar.

sábado, 10 de julho de 2010

Velas ao Vento.
J. Norinaldo.

Portugal, anciã do conselho da história,
Tanta glória recitada por Camões,
Onde o mar é mais belo e mais profundo,
O meu sonho de mostrar o quão és bela,
Se pudesse te poria mastro e vela,
Navegaria para encantar o mundo.

Na proa a imagem de Netuno,
Que te ensinou a navegar,
E em cada vela a cruz de Malta,
Como um poema que exalta;
Todo o amor que tens ao mar.
Ah! Se não fosse só sonhar.

Oh! Meu querido Portugal,
O portal por onde um dia surgiu,
Tu és para mim como a parteira,
Que num dia 22 de abril;
Separava da placenta uma bandeira...
De um lindo país que é o meu Brasil.


terça-feira, 6 de julho de 2010


Quando.
J. Norinaldo.

Quando o pão é servido e não sacia,
Quando o vinho é doce e traz mais sede,
O fogo de Deus é posto a mesa,
Quando a vela que foi vida é acesa,
Projetando as sombras rudes na parede.

E as moscas se fartarem no banquete,
Defecando em taças de cristais,
As vestais serão velhas meretrizes,
Moribundas dos versos mais boçais...
Das feridas que escondem as cicatrizes.

Quando a tela mais cara é desdenhada,
Quando o maestro esquecer sua batuta,
A vela que foi vida a derreter em castiçais,
A recender a suor e carne crua...
Clareando para os ratos nos quintais.

Quando o vinho não for sangue de ninguém,
E quando o pão já não for mais repartido,
Quando os pobres se cansarem das migalhas,
O dossel do altar já encardido...
As telas raras só servirão de mortalhas.

quinta-feira, 1 de julho de 2010


Madeiiiira
J. Norinaldo.

Amazonas, tu és a melena da terra,
Que aos poucos se torna rala,
O teu esplendor sofre e cala,
Ante as mordidas da serra.
Amazonas, tu és pujança e beleza,
Onde a água corre lenta
Como o líquido da placenta...
No ventre da natureza.

Amazonas, ama de leite do mundo,
Verde fundo do pano que não protege.
Cujas estrelas brilham sobre a nuvem alva,
Sombreando a terra calva do deserto da cegueira.
Amazonas da onça arisca, embaixatriz da beleza,
Pena que de nada vale toda tua valentia,
Se o pano verde não tremula em teu favor.
Teu futuro não passará de incerteza.

Amazonas o que dirá a canção do Irapurú?
Quando vê na mata uma fogueira,
Quando seu canto é abafado pela serra,
Que sente a terra quando tomba a castanheira?
Que pensa Deus do homem que pôs na terra,
Que ao próprio Criador declara guerra...
Tudo em nome do progresso da bandeira
Com tanto orgulho do seu grito de: Madeiiira?


Se não tomarmos cuidado
No que deixar por legado,
Será longa a nossa insônia.
Nossos filhos terão filhos
Numa nação sem vergonha,
De escrever parte da história...
Com as cinzas da Amazônia.